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Inflação e desemprego: a relação tóxica entre as duas partes

Por Giordan Cagliari

27/05/2024 11h58 Atualizada há 2 meses
Por: Redação
Foto: Reprodução
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Apesar de ter sido proposta há mais de meio século, a ideia de uma relação negativa entre inflação e desemprego ainda permanece no centro do debate macroeconômico, a chamada Curva de Phillips. Assim, com suas causas desconhecidas pelo grande público, a intenção deste descrito é popularizar os dois principais vieses acerca dessa relação tóxica, ora aplicável ora não sustentável no ciclo econômico.

Dessa maneira, a mesma procura determinar se o aparente trade-off entre inflação e desemprego possui uma relação causal ou incerta. Tal relação se caracteriza importante devido aos seus estudos serem comuns na maioria dos bancos centrais pelo mundo, com ênfase naqueles que adotam o regime de metas de inflação como medida.

Olhando para a dinâmica inflacionária, têm-se como base na curva de Phillips neokeynesiana um modelo em que há uma fixação de preços nominais que possuem certa rigidez. Assim, a inflação pode ser explicada pela evolução esperada (expectativa) dos custos marginais reais (custo adicional em toda cadeia produtiva de produzir uma unidade a mais), na qual será repassada ao mercado de modo que haverá uma variação no preço real.

 

VISÃO GOVERNAMENTAL

Por uma visão do estado, o mesmo busca, através das metas de inflação, realizar políticas favoráveis ao controle dessa variável, porém há um custo. Entende-se que uma inflação mais baixa pode indicar a desaceleração da atividade econômica, logo a consequência é um desemprego em massa para diminuir os custos produtivos e por conseguinte o preço dos produtos.

Sob esse viés, na outra ponta, cria-se um excedente de “sem renda” no qual o consumo das famílias fica prejudicado e não remunera o capital no fluxo da renda como antes. Ademais, o mercado de trabalho sofre uma retração salarial, onde o trabalhador aceita potencialmente menos só para se manter. Além, é claro, das demais políticas deflacionistas que, em suma, consistem na retração do crédito e elevação dos juros que sustentam essa “água parada”.

Dessa forma, o governo precisa trabalhar em cima desse impasse buscando formas de reduzir as taxas preocupantes dos sem ocupação. Assim, a busca por essa redução pode ser alcançada, mas com o custo de alguma inflação, através do uso de políticas fiscais e monetárias expansionistas. Logo, no cenário brasileiro e dos demais países em desenvolvimento, esse trade-off é comum durante o ciclo econômico, resolvendo uma questão a curto prazo, mas prejudicando o outro lado. Tal relação é explicada pelo movimento da curva IS-LM e o hiato entre as medidas.

Para facilitar a compreensão, farei a exposição de uma das contribuições de Hicks e Hansen, o modelo IS-LM, que consiste na descrição conjunta do mercado de bens e do mercado monetário. Nessa perspectiva, considera-se a curva LM como a oferta de moeda, na qual com políticas expansivas provoca o deslocamento da mesma para direita e para baixo, gerando uma correlação negativa entre o nível do produto, que sofre um aumento, e a taxa de juros que decresce. Assim, rompe com uma das bases das políticas deflacionistas, pois esse movimento aumenta a base monetária e os meios de pagamento (crédito) ficam mais acessíveis. Em adição, compreende-se a curva IS como o mercado de bens e serviços, no qual emprega e produz, portanto, a mesma é influenciada pelas políticas fiscais do governo que, com caráter expansivo, desloca a IS para a direita e para cima, levando a uma correlação positiva entre um maior nível do produto e uma maior taxa de juros. Logo, esse hiato entre as medidas compreende uma variável importante do combate ao desemprego, o investimento (I), que aplicado à produção gera crescimento, desenvolvimento e por consequência uma alta inflacionária controlada, posteriormente, pelo movimento da curva IS.

Em resumo, essa “gangorra” em que vivem os países em desenvolvimento traz a seguinte dúvida: o quanto é sustentável ter uma elevação dos preços em troca de um mercado interno pujante?

Ao questionar essa relação, recordamos que num passado próximo experimentamos uma inflação de dois dígitos, que por sua vez, não foi acompanhada de industrialização. Será que agora, vale a pena ceder uma ponta para desenrolar outra?

Nessa perspectiva, portanto, uma das opções, creio que a mais eficiente, é apostar no risco de ter uma inflação mais alta, porém com um nível de emprego maior. Tal proposição pode ser alcançada com alguma medida ou plano nacional de desenvolvimento, como houve no passado, consolidando matrizes industriais e suas ramificações. Dessa maneira, há a geração de um produto crescente e uma alta nos ganhos para que, através do estímulo ao consumo, abarque o impacto da elevação de preços, ao menos até entrar outra política que reduza a taxa inflacionária sem prejudicar, ou sem prejudicar tanto, o processo de desenvolvimento. Essa correlação nos leva a observar que inflação e desemprego se entendem no curto prazo, mas não possuem um “namoro” duradouro na economia.

 

Giordan Cagliari, é acadêmico de Ciências  Econômicas Universidade Estadual de Goiás (UEG)

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